O Fascínio Fatal do Césio-137
Em setembro de 1987, uma cápsula com cristais de um azulado e intrigante brilho desencadeou o maior acidente radiológico da história do Brasil. Encontrada em uma clínica abandonada em Goiânia e comercializada em um ferro-velho, a fonte do brilho era o césio-137, uma substância radioativa que, sem o conhecimento de seus manipuladores, iniciou um rastro de contaminação, mortes e sofrimento para dezenas de famílias.
Odesson Alves Ferreira, irmão de Devair Alves Ferreira, o homem que adquiriu a cápsula sem compreender os riscos, compartilhou em entrevista à BBC como a curiosidade em torno do objeto luminoso contribuiu para a disseminação do material perigoso. Devair, inicialmente fascinado, chegou a cogitar transformar os cristais em uma joia para sua esposa, descrevendo mais tarde sua obsessão como uma paixão pelo “brilho da morte”. A pequena abertura na cápsula emitia uma luz que atraiu a atenção de familiares, amigos e vizinhos, com alguns chegando a levar fragmentos para casa, alheios ao perigo iminente.
A Descoberta e a Contaminação em Massa
A cápsula foi retirada de uma clínica desativada por catadores de materiais recicláveis e vendida a Devair. A manipulação do césio-137 começou a contaminar pessoas e o ambiente ao redor. Odesson, desconfiado da utilidade do objeto, aconselhou o irmão a descartá-lo, mas Devair manteve seu interesse nos cristais. Uma semana depois, uma doença desconhecida começou a afetar diversas pessoas. Um amigo da família, ao associar os sintomas à chegada do material radioativo, alertou os parentes.
Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair, levou a cápsula à Vigilância Sanitária. Inicialmente colocada em uma cadeira no pátio, o objeto foi posteriormente examinado pelo físico Walter Mendes Ferreira, que, com um detector de radiação, constatou níveis alarmantes. Um segundo aparelho confirmou a gravidade da situação. A mensagem que Odesson recebeu de seu irmão foi um alerta sombrio: “Procure ajuda. O material que você tocou na casa é radioativo”.
O Impacto Humano e Social da Tragédia
Naquele momento, 56 membros da família estendida de Odesson já haviam sido expostos. A dimensão do acidente exigiu a convocação de mais de 100 mil moradores de Goiânia para testes de contaminação no Estádio Olímpico. Aqueles identificados como contaminados passaram por procedimentos de descontaminação, incluindo lavagens com produtos específicos e destruição de suas roupas. Odesson, orientado a beber bastante líquido, inclusive cerveja, não foi alertado sobre a contaminação de sua urina, levando à demolição do banheiro de um bar que frequentava.
A primeira vítima fatal foi Leide das Neves Ferreira, sobrinha de Odesson, de apenas seis anos, que teve contato com um fragmento levado para casa em uma caixa de fósforos. Ela faleceu cerca de um mês após a exposição, no mesmo dia de sua tia, Maria Gabriela. Dois jovens que trabalhavam no ferro-velho também morreram, seguidos por Devair em 1994 e Ivo Ferreira, pai de Leide, em 2003.
Legado de Luta e Memória
Além das perdas e sequelas físicas, os sobreviventes enfrentaram um pesado fardo de preconceito e discriminação. Odesson narrou situações em que passageiros de ônibus desciam ao reconhecê-lo, e conhecidos descartavam objetos que ele havia utilizado. Vizinhos chegaram a organizar abaixo-assinados para impedir sua mudança para uma nova casa. Seus filhos também sofreram com o estigma na escola.
Após o acidente, Odesson dedicou sua vida à defesa dos direitos das vítimas, presidindo a Associação das Vítimas do Césio-137 e mobilizando-se por assistência e reconhecimento. Aos 70 anos, ele trabalha na escrita de suas memórias e encontrou serenidade em uma fazenda, longe da agitação da cidade. Sua mensagem é um apelo contínuo: “Devemos lutar pelas pessoas e garantir que isso nunca mais volte a ocorrer em nenhum lugar do mundo”.
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