Valentino Garavani morreu aos 93 anos: as casas opulentas do criador e por que dizia que teria sido designer de interiores
O renomado criador da maison Valentino, símbolo de elegância e luxo, deixa um legado de moda, decoração e recepções íntimas que refletiam sua obsessão pela beleza
Valentino Garavani, o estilista que consagrou o tom hoje conhecido como “vermelho Valentino” e vestiu estrelas como Monica Vitti, Elizabeth Taylor, Audrey Hepburn e Jackie Kennedy, faleceu aos 93 anos. Ao longo de uma carreira marcada pelo perfeccionismo e pela atenção ao detalhe, Valentino foi também um apaixonado colecionador e decorador: suas casas eram cenários cuidadosamente montados, extensões do mesmo impulso criativo que orientava suas coleções.
Mais do que roupas, Valentino entendia a moda como narrativa. Ao lado de seu parceiro de confiança, Giancarlo Giammetti, dividiu talento criativo e gestão, consolidando uma estética que atravessou décadas. Hoje a maison pertence ao fundo catariano Mayhoola for Investments e tem Pierpaolo Piccioli como diretor criativo; ainda assim, as residências de Valentino permanecem como provas tangíveis do gosto e da maneira como ele entendia a beleza.
Villa na Via Ápia, Roma: fantasia, tecidos e mesas temáticas
Comprada em 1972 e concebida com o cenógrafo e decorador Renzo Mongiardino, a villa perto da Via Ápia é talvez a mais icônica dos endereços de Valentino. “Embelezo tudo o que toco”, disse ele à Architectural Digest — e a casa é a tradução literal dessa crença. As paredes da pequena sala foram revestidas em tecidos turquesa e amarelo com estampas da própria Valentino; um tapete marroquino convivia com esculturas europeias e pinturas, entre elas obras de Pablo Picasso.
A ambientação mesclava influências indianas, asiáticas e chinesas: uma sala de jantar instalada sob uma tenda turca listrada, esculturas chinesas do século 18 na sala principal, e uma biblioteca com pintura de Fernando Botero. Valentino colecionava também peças menores que, segundo ele, criavam “vibrações” — uma natureza-morta flamenga do século 19 ou um retrato feminino de Bronzino que ele afirmou ter comprado porque precisava daquela pintura.
Quartos, banheiros e áreas de lazer reproduziam a mesma obsessão pelo detalhe: pés de cama esculpidos em bambu, colchas indianas acolchoadas, pisos em marchetaria de teca e mármore, tapetes de pele de leopardo e paredes espelhadas pintadas com figuras persas e laranjeiras. O fundo da piscina, decorado com mosaicos, completava o quadro de uma dolce vita opulenta e teatral.
Château de Wideville, França: largo parque, historicismo e recepções
Adquirido em 1995, o Château de Wideville, em Davron, é uma propriedade do século 16 que ocupa mais de 120 hectares e foi restaurada com o olhar do designer de interiores Henri Samuel. Construído no estilo Luís XIII, o castelo teve sua história recontada por Valentino, que ali combinou o espírito francês do século 19 com elementos da China imperial — uma síntese do historicismo progressivo que Samuel defendia.
Wideville recebeu grandes recepções e eventos memoráveis, incluindo celebrações de casamentos famosos. Nas mesas do castelo, pratos da culinária italiana dividiam espaço com uma coleção de cisnes de porcelana Meissen, exemplo do gosto por misturar referências e objetos que, nas palavras do estilista, permitiam desenvolver um universo estético a partir de um encontro casual com um móvel ou pintura.
Chalé em Gstaad e outras residências: intimidade e entretenimento requintado
No cenário alpino de Gstaad, Valentino mantinha um chalé onde passava o Natal e o Ano-Novo rodeado de amigos. André Leon Talley escreveu que ali a atmosfera era “excepcional, opulenta e acolhedora”: Valentino aplicava o mesmo rigor de suas coleções à organização dos almoços e jantares, e tinha um prato e uma louça específicos para cada ocasião — no chalé, por exemplo, costumava servir um pudim de leite de cabra em porcelana portuguesa.
Além desses imóveis, o casal Garavani–Giammetti possuía mansões em Londres (Holland Park, com pinturas de Picasso), um apartamento em Nova York, o chalé Gifferhorn e até um iate. Em Cetona, na província de Siena, eles moraram por décadas na Villa La Vagnola, decorada em parceria com Mongiardino e colocada à venda em anos recentes por valores milionários — outra amostra do gosto cenográfico e do interesse por residências que funcionavam como palcos.
Cor, clientes e legado: o homem por trás do vermelho
Valentino era conhecido por sua assinatura cromática: uma fórmula precisa que combinava laranja, violeta e carmim e que se tornou sinônimo de sua marca. “Adoro esta cor porque fica bem em todos os tipos de mulheres”, dizia. Ao longo de décadas, vestiu personalidades do cinema e da sociedade e também lançou linhas mais populares, como jeans (estreou em 1979 no Studio 54 com fotos de Bruce Weber) e óculos, incluindo o modelo Oliver.
Além da moda, a casa e a mesa eram extensões do seu ofício. “Se eu não tivesse me tornado estilista, teria sido designer de interiores”, afirmou em entrevistas, reforçando que sua obsessão pela beleza não se limitava às passarelas. Receber poucos convivas, montar mesas temáticas e compor ambientes eram exercícios que o estimulavam tanto quanto criar vestidos.
Com a partida de Valentino Garavani, a moda perde um de seus grandes narradores visuais: um homem que via a criação como um ato de embelezamento constante. Suas residências — verdadeiros set pieces de vida — permanecem como documentos palpáveis desse legado, lembrando que, para ele, tudo começava num objeto, numa cor, numa pintura, e se desdobrava em um universo inteiro.
O nome Valentino seguirá nas etiquetas, agora sob a governança de investidores e a direção criativa de Pierpaolo Piccioli, mas as casas e o estilo de vida cultivados por Garavani permanecem como referências para quem entende moda como cultura e decoração como extensão inevitável do vestir.
Sou um redator especializado em jardinagem, com formação em marketing. Combinando minha paixão por plantas com habilidades em comunicação, crio conteúdo cativante e informativo sobre jardinagem, ajudando as pessoas a transformarem seus espaços verdes. Minha missão é compartilhar conhecimento e inspirar outros amantes de plantas a cultivarem jardins vibrantes e cheios de vida.