Nádia Taquary transforma memória afro-diaspórica em esculturas no ateliê à beira da Baía de Todos-os-Santos: ancestralidade, técnicas e a potência da mulher negra
No trabalho de Nádia, cabeças sagradas, totens e árvores cósmicas traduzem fé, história e cuidado coletivo em materiais como bronze, madeira, palha e miçangas
Entre ancestralidade e experimentação material, a artista baiana Nádia Taquary converte memórias afro-diaspóricas em esculturas e instalações que reverenciam o papel das mulheres negras e desafiam olhares estabelecidos sobre arte contemporânea. Sua produção explora símbolos, cores e técnicas que remetem às cosmologias iorubanas e a processos de resistência cultural trazidos da África ao Brasil.
Oríkì, penteados sagrados e Dinkas Orixás
Na série Oríkì — termo que aproxima a palavra iorubá ‘orí’ (cabeça) a um gesto de saudação — Nádia produz esculturas em bronze e madeira cujas cabeças recebem penteados escultóricos feitos com palha, búzios e miçangas. Para a artista, ‘é nessa reverência ao orí que me entendo como mulher negra brasileira’, expressão de um legado vivo que conecta ancestralidade e presente.
Os Dinkas Orixás, totens que aparecem em outro conjunto de trabalhos, evocam as ‘joias de axé’ por meio de fios de contas coloridas. As primeiras Dinkas realizadas celebram Yabás — Oxum, Iemanjá e Iansã — e suas cores: respectivamente amarelo, azul e marrom. Cada cor funciona como narrativa e presença evocada nas obras.
Ìyámìs, bronze e a referência à técnica Ashanti
Nádia escolhe o bronze para dar forma às Ìyámìs, mães ancestrais da cosmologia iorubana. A opção pelo metal dialoga com uma carga diaspórica: a técnica de fundição Ashanti, trazida por ourives escravizados, aparece como vocabulário técnico e simbólico na produção da artista. Em suas obras, as Ìyámìs assumem feições que lembram peixe, sereia ou pássaro e articulam elementos do ar e da água, do céu e da terra.
O documentário Ìyámi Agbá, narrado pelo poeta Ferreira Gullar, serviu à artista como ponto de partida para algumas dessas imagens, que ganharam destaque em mostras nacionais importantes.
Ònà Irin e percurso expositivo
O caráter intuitivo do processo criativo de Nádia se revela também em trabalhos imersivos. Em Ònà Irin: Caminho de Ferro, uma instalação dedicada a Ogum — orixá do ferro, da tecnologia e dos caminhos — trilhos multiplicados por espelhos desorientam o visitante, traduzindo energia e deslocamento em experiências sensoriais. A mostra, com curadoria de Amanda Bonan, Ayrson Heráclito e Marcelo Campos, reuniu 22 obras da artista e passou por instituições como o Museu de Arte do Rio e o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, antes de ficar em cartaz no Sesc Belenzinho.
Na Bienal de São Paulo, Nádia apresentou Ìrókó: A Árvore Cósmica, instalação composta por centenas de milhares de miçangas de fibra de vidro que formam ramificações superiores e inferiores — uma peça que resultou de nove meses de trabalho com uma equipe formada majoritariamente por mulheres (25 pessoas) e que remete à presença das Ìyámìs como pouso e matriz.
O ateliê: vista para Iemanjá e um espaço de criação coletiva
Exceto quando projetos exigem escalas maiores, a maior parte do trabalho de Nádia acontece em seu ateliê luminoso de 300 m², no nono andar de um prédio com vista para a Baía de Todos-os-Santos, em Salvador. O espaço, reformado pela arquiteta Ana Paula Magalhães, garante a proximidade com o mar — e com Iemanjá, de quem a artista se considera filha — e funciona como campo de experimentação, produção e juntança.
Além do aspecto técnico e estético, a artista defende uma missão clara: descolonizar o olhar e ampliar o acesso às histórias e narrativas afro-brasileiras. ‘Meu desejo é desconstruir o olhar único, descolonizar o pensamento e trazer novas percepções para que o maior número de pessoas acesse a nossa história’, afirma Nádia, cuja produção também inclui projetos em diálogo com a obra do Mestre Didi.
Com práticas que mesclam memória, fé e trabalho coletivo, Nádia Taquary transforma matéria e simbologia em dispositivos para celebrar a potência feminina negra e pensar novas vias de leitura do patrimônio cultural afro-brasileiro.
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