A música é a nova gastronomia: como Bad Bunny, Karol G e a cena latino-americana estão redesenhando roteiros de viagem
Do show-estadual às ruas: por que as canções virais passaram a guiar onde as pessoas escolhem ir
Dos estádios de Porto Rico às ruelas onde se toca cumbia ao vivo, a música latino-americana deixou de ser apenas som para virar motor de escolha turística. Residências de shows, turnês globais e documentários virais transformaram cidades e estilos locais em destinos procurados por fãs que querem viver os lugares retratados nas letras e nos clipes.
O efeito Bad Bunny: Porto Rico no mapa e um impacto econômico mensurável
Aproximações entre artista e território tornaram-se estratégicas para destinos. A Companhia de Turismo de Porto Rico atribuiu grande parte do aumento de visitantes ao anúncio da residência de Bad Bunny: apresentações que dominaram as redes e, segundo estimativas locais, injetaram cerca de US$ 250 milhões na economia do território. Para muitos, Benito é mais do que um cantor — é símbolo de um estilo de vida e um cartão-postal vivo que levou turistas a incluir a ilha nos seus roteiros.
Esse fenômeno não é exclusividade de superestrelas: a tradução da vida local para imagens e sons — seja em videoclipes, letras ou shows gravados — funciona como uma vitrine poderosa que impulsiona o desejo de experiência direta.
Cidades em ascensão: Medellín, Monterrey e a força da identidade sonora
Medellín, por exemplo, mudou sua imagem pública nas últimas décadas e hoje é vista como um polo musical e cultural. A cidade ganhou o reconhecimento de Cidade Criativa da Música pela Unesco em 2015 por iniciativas que usam a música para fortalecer a identidade local e promover inclusão social. Jornalistas e especialistas relatam que seguir um gosto musical levou viajantes a descobrir bairros, centros culturais e salões de dança frequentados por moradores — experiências que fogem do turismo convencional.
No México, a repercussão de produções como o documentário sobre Juan Gabriel — exibido gratuitamente no Zócalo da Cidade do México para um público estimado em mais de 170 mil pessoas — e a presença constante de artistas como Christian Nodal nas paradas globais aumentaram a curiosidade por cidades com forte identidade sonora. Monterrey, além de sediar partidas da Copa do Mundo, é palco do Tecate Pa’l Norte, festival que reuniu centenas de milhares de pessoas e foi descrito pela imprensa especializada como um motor turístico e econômico para o estado.
Festivais, ‘gig trippers’ e economias locais: quando a música vira roteiro
Consultorias como a Sound Diplomacy destacam que o perfil do viajante está mudando: há quem monte roteiros inteiros em torno de shows e festivais. Pablo Borchi Klapp, músico e guia especializado em cumbia na Cidade do México, resume: “A música compartilha o DNA de um lugar. É um museu vivo, a crônica de um povo”. Sua análise ajuda a entender por que turistas culturais gastam mais e ficam mais tempo em destinos quando motivados pela cena musical.
Grandes eventos — do Vive Latino ao Festival de Viña del Mar, passando por apresentações virais como as de Bizarrap e pela atuação de artistas latino-americanos em palcos internacionais — ampliam ainda mais essa dinâmica. Em paralelo, surgem os “gig trippers”, que priorizam agenda musical tanto quanto pontos turísticos tradicionais.
Pequenas nações e patrimônios sonoros: Belize e a aposta no garífuna
Nem só as metrópoles se beneficiam. Belize, com cerca de 400 mil habitantes e conhecida por seus recifes, contratou a Sound Diplomacy para criar um plano de turismo centrado em sua história musical. O país aposta no patrimônio garífuna — dança, percussão e narrativa reconhecida pela Unesco como patrimônio cultural imaterial — como diferencial para atrair visitantes interessados em experiências culturais autênticas.
Esses projetos mostram que a música pode ser ferramenta de preservação e desenvolvimento local, abrindo oportunidades para destinos menores ganharem visibilidade sem depender de uma superestrela.
Turismo consciente: limites, impacto social e a voz dos locais
O crescimento do turismo musical traz alertas. Críticas de artistas como Bad Bunny a formas de turismo que lembram colonização — citadas em letras como “TURiSTA” — e relatos sobre ingressos caros que impedem fãs locais de ver seus artistas no próprio país lembram que a popularização tem efeitos ambíguos. Nastia Voynovskaya, DJ e editora de música, destaca que seguir um gosto musical leva a experiências mais significativas, mas espera que essas viagens incentivem comportamentos respeitosos.
Profissionais do setor e moradores pedem que visitantes considerem o contexto local: apoiar músicos e espaços independentes, evitar comportamentos que pressurizem comunidades e reconhecer que a música é também um patrimônio vivo que merece ser tratado com cuidado.
Para quem planeja viajar por música em 2026, o conselho é simples: combine shows e festivais com visitas a bairros, bares e eventos comunitários; pesquise o impacto econômico e social da sua presença; e prefira experiências que beneficiem diretamente artistas e iniciativas locais. No fim das contas, a música que atrai turistas hoje é a mesma que pulsa nas ruas — e viajar por ela pode ser uma forma autêntica de conhecer uma região, desde que feita com respeito.
Entidades e eventos citados: Bad Bunny, Karol G, Christian Nodal, Paloma Mami, J. Lo, Shakira, Ricky Martin, Grupo Frontera, Peso Pluma, Medellín (Cidade Criativa da Música, Unesco 2015), Tecate Pa’l Norte, Vive Latino, Festival de Viña del Mar, Bizarrap, Daddy Yankee, Sound Diplomacy, garífuna (patrimônio imaterial da Unesco), Zócalo da Cidade do México.
Sou um redator especializado em jardinagem, com formação em marketing. Combinando minha paixão por plantas com habilidades em comunicação, crio conteúdo cativante e informativo sobre jardinagem, ajudando as pessoas a transformarem seus espaços verdes. Minha missão é compartilhar conhecimento e inspirar outros amantes de plantas a cultivarem jardins vibrantes e cheios de vida.