Como a cenografia de ‘O Agente Secreto’ reconstrói o Recife dos anos 1970 e revela as camadas dos personagens

Como a cenografia de ‘O Agente Secreto’ reconstrói o Recife dos anos 1970 e revela as camadas dos personagens

Móveis de época, azulejos recriados e objetos carregados de memória — pesquisa em álbuns, museus e referências locais transformou apartamentos do Edifício Ofir em cenários que narram história e personalidade

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Em O Agente Secreto, a cenografia vai além de criar um pano de fundo: os ambientes funcionam como ferramentas narrativas que ajudam a situar o espectador no Brasil dos anos 1970 e a revelar traços íntimos dos personagens. A reconstrução se apoiou em pesquisa fotográfica, visitas a acervos e no uso de mobiliário e objetos de forte carga regional e afetiva.

Pesquisa visual e memória doméstica

A base do trabalho foi uma extensa busca em álbuns de fotografia coordenada pela figurinista Rita Azevedo. Essas imagens, segundo Thales Junqueira, diretor de arte do filme, deram um “olhar mais doméstico, mais íntimo da época” e indicaram texturas e composições para os cenários. Algumas fotos mostravam exatamente apartamentos do Edifício Ofir — referência central para as residências de personagens como Dona Sebastiana, sua sobrinha Geisa e Cláudia — e apontaram elementos concretos que foram reproduzidos na obra.

Além dos álbuns familiares, a equipe visitou museus e arquivos públicos. Thales e o cenógrafo Kleber relatam o impacto de uma exposição de Jorge Bodanzky no IMS, cujas fotografias do período da ditadura revelaram paisagens humanas e urbanas alinhadas ao tom buscado pelo filme.

Transformar o Edifício Ofir: restauração e recriação

Embora a fachada do Edifício Ofir já remetesse aos anos 1970, os interiores precisaram de uma intervenção completa para voltar ao período. A cenógrafa e decoradora Mariana Kinker conta que o processo mesclou produção de peças novas, compra e reforma de móveis e colaborações locais no Recife. Um exemplo prático foi a mesa de jantar redonda da casa de Geisa, construída a partir de um modelo comercial vendido na Mesbla — grande rede de departamentos das décadas seguintes.

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Para trazer autenticidade às superfícies, a equipe instalou piso cenográfico de madeira e reformulou completamente a cozinha do apartamento de Marcelo. “Fiz um levantamento em cemitérios de azulejo no Recife e encontramos alguns modelos interessantes. A partir deles, produzimos um azulejo para revestir a cozinha”, explica Thales.

Objetos que contam quem são os personagens

Mais do que ambientar, a cenografia revela personalidades. A casa de Dona Sebastiana, por exemplo, concentra um altar de lembranças e móveis pesados e antigos que narram sua história. A diversidade de estampas e objetos introduz uma irreverência condizente com a personagem, segundo Mariana.

Geisa, personagem que sequer aparece em cena, é construída pela presença de objetos: quadros, livros, discos, artesanatos, fotos de família e uma escrivaninha que dá pistas sobre suas rotinas e gostos. “A forma como as coisas se misturavam em sua própria organização contou um pouco dela pelos objetos”, afirma a produtora de objetos.

Há também escolhas intencionalmente regionais: obras de artistas pernambucanos como Euclides Francisco Amâncio (Bajado) e Wellington Virgolino, cadeiras típicas na mesa de jantar de Dona Sebastiana e uma cristaleira marcante na casa de Alexandre com vidro desenhado e pequenas “asinhas” laterais — peças que trazem o Recife para dentro dos cenários.

Contrastes: do sentimental ao desenvolvimentismo kitsch

A cenografia explora contrastes para contar relações de poder e afeto. Em alguns apartamentos, a decoração é sentimental e microfísica: um quadro com a foto da filha, paninhos sobre estantes, objetos dispostos por afeição. Em outros espaços, como o escritório de Henrique Ghirotti (interpretado por Luciano Chirolli), a linguagem é oposta — móveis de linhas retas em jacarandá, couro preto, acrílico e aço, com toques dourados e referências globais que assumem um tom mais kitsch.

Essa composição de elementos, avalia Marina, funciona como extensão da postura dos personagens e dialoga com discursos políticos e sociais da época: “Essas escolhas pensando na cidade, no período e em quem é cada personagem contribuem muito para essa sensação de teletransporte a esse tempo que está na memória ou para a construção da memória desse tempo para pessoas que não o viveram”.

Ao transformar materiais, objetos e pesquisas históricas em decisões estéticas concretas, a cenografia de O Agente Secreto não apenas reconstrói uma época: ela conta histórias que aparecem em detalhes — uma cadeira, um azulejo, um vaso — e que ajudam o público a entender o que os personagens guardam e o que o lugar onde vivem revela sobre eles.

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