Por dentro da Leighton House: o Arab Hall revestido de azulejos que reabre o debate sobre colonialismo, arte e autoria no centenário
Ao completar 100 anos como museu, a casa do pintor Frederic Leighton transforma seu salão árabe em eixo de pesquisas, filmes e instalações site-specific para reavaliar origem, circulação e significado dos azulejos
Em Kensington, Londres, o Arab Hall da Leighton House — um interior orientalista revestido de azulejos, treliças e uma cúpula dourada — assume papel central nas celebrações do centenário do museu. Mais do que uma vitrine de exotismo vitoriano, o espaço passa a ser investigado como projeto estético e intelectual, e como palco de questionamentos sobre proveniência, circulação cultural e memória.
O Arab Hall: estética, construção e anedotas
O salão impressiona pela continuidade visual: paredes cobertas por azulejos esmaltados originários de Damasco, de Iznik e da Pérsia formam uma pele de padrões e cores; treliças no estilo mashrabiya filtram a luz; no centro, um espelho d’água raso reflete a cúpula dourada e ajuda a refrescar o ambiente. A atmosfera era tão imersiva que, no século XIX, visitantes como James McNeill Whistler e Edward Burne-Jones, distraídos em conversa, chegaram a atravessar o salão e cair na água.
Ao contrário da ideia de que o Arab Hall seria um ornamento tardio, a pesquisa recente mostra que Frederic Leighton já planejava o espaço desde 1870 — anos antes de construir o salão e muito antes de sua eleição como presidente da Royal Academy, segundo a doutora Gibson. Isso reposiciona o Arab Hall como um empreendimento de longo prazo na obra de Leighton, e não um capricho decorativo acrescentado no fim de sua carreira.
Controvérsias: azulejos, colonialismo e autoria
Os azulejos, porém, não são apenas objetos estéticos. Eles percorreram milhares de quilômetros em contextos marcados pelo poder colonial, práticas de colecionismo e trocas assimétricas. Retirados de seus lugares de origem e remontados no coração de Londres, esses artefatos ocupam uma zona ambígua entre admiração, apropriação, erudição e posse.
A reavaliação promovida pelo centenário convida a encarar essas trajetórias: quais histórias foram apagadas quando peças foram deslocadas? Que vozes foram excluídas das narrativas sobre autoria e valor cultural? Essas perguntas orientam a curadoria e as comissões artísticas do programa.
O programa do centenário: exposições, filmes e reconstruções
O calendário de celebrações combina arquivos, obras contemporâneas e comissões site-specific. Leighton House: A Journey Through 100 Years, em cartaz de outubro de 2025 a março de 2026, traça a evolução do edifício desde 1926 com fotografias de época, depoimentos pessoais e filmes. Paralelamente, a artista holandesa do papel Annemarieke Kloosterhof apresenta Ghost Objects: Summoning Leighton’s Lost Collection, reconstruindo quatro objetos desaparecidos da coleção original de Leighton com milhares de pedaços de papel branco — uma metáfora para fragilidade das histórias perdidas.
No outono, The View from Here reúne artistas contemporâneos do Oriente Médio e do Norte da África, reafirmando que o Arab Hall é parte de um diálogo cultural vivo. O programa culmina na primavera de 2026 com The Arab Hall: Past and Present, estruturada em três eixos: um curta-metragem comissionado à cineasta síria Soudade Kaadan, When the Tiles Spoke, que acompanha a trajetória dos azulejos desde a Damasco do século XVI até sua recontextualização em Londres; uma apresentação baseada em pesquisa sobre construção e procedência; e intervenções site-specific dos artistas Ramzi Mallat, Kamilah Ahmed e Soraya Syed.
Conservação, responsabilidade e novos sentidos
Para os responsáveis pelo museu, cuidar do edifício é tarefa essencial, mas insuficiente se o lugar não mantiver relevância pública. “Como acontece com todos os sítios históricos, cuidado e conservação são essenciais”, afirma Daniel Robbins, curador sênior da Leighton House. “Mas edifícios como este só podem realmente prosperar se continuarem a ter significado e relevância.”
Artistas convocados para o centenário assumem esse desafio. “Acredito que exista um dever de cuidado ao trabalhar em um espaço como este”, diz Ramzi Mallat. Sua proposta parte da curiosidade de Leighton pelas tradições artesanais do Oriente Médio, mas pretende reformular o patrimônio como algo vivo, em disputa e continuamente reinterpretado.
Ao transformar o Arab Hall em ponto de encontro entre pesquisa acadêmica, cinema e práticas artísticas contemporâneas, a Leighton House oferece ao público a oportunidade de olhar além do virtuosismo artesanal. O objetivo é ampliar a leitura do objeto — não apenas como beleza ou troféu estético —, mas como evidência de deslocamentos históricos, de autorias múltiplas e de narrativas que continuam a se formar quando o passado é dialogado pelo presente.
Com isso, o centenário da Leighton House propõe um balanço: reconhecer a singularidade do Arab Hall enquanto obra de arquitetura e decoração, e ao mesmo tempo confrontar as complexidades de sua história para permitir novas histórias e interpretações se desenvolverem.
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