Superiates assinados por Piero Lissoni, Winch Design e Yves Behar: como o design autoral, a sustentabilidade e a produção italiana estão redefinindo a indústria — e o papel do Brasil
Estaleiros trabalham com arquitetos de renome para transformar iates em casas itinerantes; Itália lidera produção mundial enquanto o Brasil amplia oferta e customização
Com a demanda por superiates em alta, estaleiros internacionais têm buscado cada vez mais parcerias com arquitetos e escritórios de design consagrados. O objetivo não é apenas ampliar o luxo, mas ressignificar essas embarcações como residências itinerantes, integradas ao mar e projetadas para padrões elevados de conforto, performance e sustentabilidade.
Design autoral: o iate como casa
Para designers como o milanês Piero Lissoni, o conceito tradicional de iate — marcado por opulência e excesso — vem sendo substituído por propostas mais contidas e sofisticadas. Desde 2018, quando assumiu a direção criativa do estaleiro italiano Sanlorenzo, Lissoni defende tratar as embarcações como «verdadeiras casas», com ênfase na abertura para o mar e na sensação de quiet luxury. Segundo o arquiteto, a principal diferença em relação a um projeto residencial é a atenção à estabilidade e à segurança: móveis e elementos precisam ser fixados e contar com mecanismos antirrolamento.
Essa mentalidade levou estaleiros a convidar nomes do design europeu para assinarem modelos exclusivos. A parceria entre Sanlorenzo e a designer espanhola Patricia Urquiola, por exemplo, reforça a aposta no design italiano como diferencial competitivo.
Desafios técnicos e customização
Projetar para o mar exige adaptações específicas. Mobiliário tem de ser desenhado sob medida, com tratamentos contra o sol, a maresia e a chuva; sem quinas que ofereçam risco; e com acessórios solidamente fixados à estrutura. Tudo isso passa pela engenharia naval, que precisa conciliar limitações de espaço, peso e estabilidade.
No Brasil, onde o perfil de navegação privilegia o uso externo por conta do clima, as adaptações são ainda mais marcantes. A Azimut Brasil, operação do grupo Azimut | Benetti instalada em Itajaí desde 2010, replica padrões italianos e trabalha localmente na escolha de revestimentos e adaptações de layout para atender clientes brasileiros. «Para replicar o padrão da nossa matriz, precisávamos de um local que unisse vocação náutica e potencial de mão de obra com capacidade artesanal e técnica», afirma Carlo Alberto Sisto, CEO da Azimut Brasil. A empresa produz no país iates entre 16 e 17 m, com um modelo de 25 m desenvolvido localmente.
Sustentabilidade e inovações híbridas
Firmas como o estúdio britânico Winch Design vêm incorporando práticas sustentáveis aos interiores, priorizando materiais naturais, baixo teor de compostos orgânicos voláteis e escolhas que facilitem manutenção e upgrades futuros. O Flexplorer 146 Nasiba, desenvolvido em parceria com o estaleiro italiano Cantiere delle Marche, exemplifica esse movimento: com 44 m, o projeto traz troncos de madeira, parede verde e tecidos de fibras naturais, resultado da colaboração com a EcoNest Architecture. «Em iates, os materiais e acabamentos devem atender a padrões de durabilidade e segurança muito mais rigorosos do que os de residências», resume Jim Dixon, responsável por projetos náuticos no estúdio.
No campo da propulsão, a transição é mais lenta. Apesar de inovações, como o Solsea — iate de 43 m idealizado pelo designer suíço Yves Behar em parceria com a italiana Rossinavi, capaz de gerar parte significativa da própria energia por placas fotovoltaicas integradas —, a presença de embarcações híbridas e elétricas segue restrita. Segundo a Boat International, em 2026 havia apenas 38 unidades híbridas em produção e quatro totalmente elétricas, evidenciando a necessidade de avanços tecnológicos e de infraestrutura.
O papel do Brasil e projetos sob medida
Enquanto a Itália responde por cerca de 50% da produção mundial de superiates — seguida por Turquia, Países Baixos, Taiwan e Alemanha —, o Brasil mantém posição relevante na América Latina. A Associação Brasileira dos Construtores de Barcos e Seus Implementos (Acobar) estima que, em 2025, o país tenha fabricado cerca de 4,5 mil embarcações motorizadas de esporte e lazer acima de 5 m, reflexo de capacidade produtiva e demanda contínua. «Temos capacidade produtiva e demanda contínua», destaca Eduardo Colunna, presidente da Acobar.
No campo da customização, designers brasileiros também têm ganhado espaço: a interiorista Naiara Bogo, da equipe da Azimut Brasil, explica que o design vem da Itália, mas que o time local ajusta revestimentos e áreas externas para navegar no clima tropical. A arquiteta Carla Guilhem, que trabalha entre Miami e Roma, soma projetos ambiciosos: entre eles a Lady Lene, de 34 m, desenhada para um proprietário cadeirante, e o Mission-L, de 63 m, pensado como plataforma para apoio a pesquisas científicas. «Passei meses trabalhando com o estaleiro para elaborar um layout acessível», diz Carla, cuja obra foi premiada no Boat International Design & Innovation Awards.
O resultado dessas colaborações é um segmento cada vez mais marcado por identidades autorais, exigências técnicas elevadas e experimentos em sustentabilidade — um cenário que transforma superiates em plataformas de morar, explorar e, potencialmente, de contribuir para a preservação dos oceanos.
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Fonte: entrevistas e dados de estaleiros, associações do setor e publicações especializadas.
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